Mas então porque é que eu tive que...!

A minha vida, como de resto a de quase todos os comuns mortais, não é a perfeição.
Muito se tem para caminhar, fazer, desfazer e, graças a Deus nunca conseguimos ser perfeitos.
Digo isto porque assim me obrigo a persistir para conseguir mais e melhor. Às vezes, muitas vezes, custa-me aceitar certas sugestões, reparos porque afinal não sendo perfeita tantas vezes julgo que o sou. No que já fiz, no que já consegui ultrapassar, no que vou fazendo...
Contudo, não sendo perfeita, olho para os meus filhos e acredito que fiz algo perfeito na vida. Afinal Deus concedeu-me três pondo à prova a minha capacidade de amar os outros, de os amar, mais do que a mim mesma. Foi esse ato de amor que me levou a dar início a este blog.

Fazia já muito tempo que um dos meus filhos, o Francisco, me pedia para que deixasse as minhas receitas escritas. Prometi-lhe que o faria. Não lhe disse quando. Pensei sempre que o faria num formato "demodé", contrário ao avanço dos dias e dos tempos atuais, manuscrito, num caderno de linhas. Afinal tenho ainda uma letra de menina, certinha, redonda e habitualmente cuidada.

O tempo e talvez até mais do que isso o pensamento, trairam-me... e aqui estou em formato digital obrigando-me assim a manter-me "up to date " com estas coisas da tecnologia que, em constante avanço, não serão certamente como as receitas que fui seguindo nos meus tempos de adolescente e, às quais fui dando o meu cunho pessoal, transformando-as nas minhas receitas.

Desde muito nova que fui dada a estas coisas da culinária. De resto elas espelham a gravura de mim mesma 😅. Disseram-me muitas vezes que isto era gosto e jeito de família por ter tido uma tia, a Helena, irmã da minha mãe, que gostava muito de cozinhar; cozinhava lindamente e, sobretudo como eu, arriscava em coisas, à primeira vista, dificeis. Como eu, também não tinha medo, nem vergonha de experimentar um prato novo, para servir a amigos. Corri tantas vezes e, ainda corro, esse risco...
Esta herança pode até ser verdade mas não me convence. O que eu acho mesmo é que isto é um gosto que vai crescendo cada vez mais quando se reunem algumas condições especiais, onde a primeira será sempre gostar do que se faz. Fazer-se com amor; Dividi-lo com os outros, dando-o desta forma.

Depois vieram outros tempos. Esses em que sendo estudante, sozinha em Lisboa não bastava gostar. Seria fácil ser capaz de marimbar para os cozinhados e gozar esse tempo com outros cozinhados, da circunstancia da idade e de estar num mundo completamente novo e cheio de novidades... ; Nunca pûs as minhas refeições de parte. Juntei a isso o facto de nunca esquecer que "os homens também se conquistam pela boca"...

Ao conhecer o Luís, conheci a mãe dele. Como ela os seus cozinhados eram simples. Mas cheios de tudo. Não na simplicidade mas na forma de pensar, decidir e fazer eramos decididamente muito diferentes. Com ela aprendi muita coisa. Algumas que tento fazer religiosamente e à letra como ela e não consigo ( isto é bom para que os meus filhos, em especial para o Francisco, se convencerem de que mesmo deixando por cá as minhas receitas haverá sempre aquelas que eles nunca serão capazes de reproduzir). Aprendi sobretudo a improvisar. Não lhe consigo bater no uso da panela de pressão. Ainda hoje, passados tantos anos e com ela também há já outros tantos fisicamente longe de nós, oiço nitidamente aquele apito e sinto aqueles aromas simples quando piso aquela que foi a sua cozinha no Cartaxo. Cozinhava sem medidas, coisa que eu acho que é privilégio de quem cozinha com o coração e sem medida... mas também sem horários porque também foi com eles que adulterei os horários das refeições. Os seus cafés prolongados com amigas eram sempre maiores que o mostrador do relógio, que a hora de refeição do meu sogro, que os nossos horários de fim de semana mesmo que eles tivessem pelo meio outros programas... mas tinha na panela de pressão, na criatividade e amor a solução.
Foi também por ela mas sobretudo pelo resultado do que ela fazia na cozinha que tive que juntar aos meus ingredientes, pitadas de ciumeira. Não havia nada que mais me custasse no início que eram as comparações... acho que na vida, como nos tachos a forma de cada um fazer e o resultado do que se faz é único. Não tem comparação. ( Meus filhos, não caiam nesta tentação. Mesmo que em memória o pecado da gula vos assalte, contenham-se... nunca digam, o da minha mãe era melhor; optem sempre por sem dizer fazer sentir que podia ser melhor mas, digam sempre que são diferentes. Porque é isso que vai acontecer. Até mesmo quando vocês seguirem as receitas religiosamente. À letra. Isto não é suguramente uma receita mas será sempre um conselho).

Foi também sempre rodeada pelos amigos, muitos deles trazidos pelo Luís, meu marido, que este gosto foi incentivado; foi também graças a eles que, muitas vezes sem graça, mas de coração cheio, via a minha casa, quer ainda durante o nosso namoro, quer depois já casados até aos dias de hoje cheia de convivas para mais um petisco.
Foi e será sempre por vocês e por aquilo que o que cozinho vos faz transmitirem-me que vou hoje dar início a este blog.

Obrigada Duarte por te manteres fiel ao meu arroz de coelho ... sempre melhor até do que aquele que sabemos e que o pai insiste em falar, sempre que há arroz de coelho e mesmo que repeita 3 vezes...; ou pelo meu pão de ló porque o de Alfeizerão não é nada de especial...
Obrigada Francisco por os meus cozinhados te terem feito ainda mais saudades de Portugal quando estiveste ausente. Mesmo quando a ausencia foi um par de dias na Bélgica e, quando chegaste ao aeroporto de Lisboa nada mais te saltou à ideia que a minha caldeirada de bacalhau! Ou ainda pelo almoço de hoje, bacalhau à Gomes de Sá que te levou a dizer-me uma vez mais "Mãe tens que... em vez de estares aí a anhar durante o dia... não te queria dizer isto desta forma mas temos que ficar com as tuas receitas quando morreres, por isso "Mãe, tens que..."
Obrigada Catarina por nunca teres encontrado, nas sopas que se fazem de barriga encostada ao fogão ou seja não "Bimbicas" , sopas iguais à da Mãe. Por te conseguir babar com uns croquetes que quase não levam farinha e ficam muito curtos e grossos, como alguém os desenha...;
Obrigada Luís por, mesmo não sendo igual à da Lala seres capaz de convidar os amigos para uma dobrada com batata e cenoura, à moda do Cartaxo, uma mão de vaca com grão ... ;
Obrigada a alguns amigos que não se cansam de me dizer "cozinhas para caramba" ou até de terem ousado dizer que o meu cocktail de camarão foi o melhor que algum dia comeram ou ainda de terem feito uma critica brutal aos meus cozinhados de todos os dias simples da semana ou até de dias especiais de aniversário, deixando-a publica no FB e denominando a nossa casa como a "Tasca do Oeste"...
É por tudo isto que possa vir a ser memórias que escrevo este blog.
Sim porque como Mia Couto diz  em O fio das Missangas , " Cozinhar não é serviço. Cozinhar é um modo de amar os outros" 

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